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Dezembro 1998

Depressão infantil - a doença que ninguém vê

A depressão infantil é uma doença ignorada, difícil de diagnosticar, que chega a matar e precisa receber a atenção de pais e professores.

(resumo de matéria publicada na Revista Educação de Set/98 pag 28 a 38) )

Muitas vezes negligenciada pelos pais e mal diagnosticada pelos médicos, confundida com fobia escolar ou deficiência mental, a depressão infantil ocorre até em bebês e pode levar a criança e o adolescente ao abuso do álcool, drogas e tentativa de suicídio.

Dados colhidos em pesquisas internacionais e brasileiras assustam: cerca de 20% de crianças e adolescentes em todo o mundo tem sintomas de depressão e quase 5% desenvolvem a doença.

A depressão é um conjunto de vários sintomas que leva a criança ao sofrimento e angústia inexplicáveis, ao medo de ser "diferente", "ruim", "sozinho" e "incompreendido". É uma visão pessimista de si mesma, de desesperança com a vida, da qual a criança não consegue se livrar.

Entretanto, as tristezas e descontentamentos temporários do cotidiano não significam que a pessoa esteja deprimida, nem o sofrimento causado pela perda de um ente querido são sinais de depressão. Se os sintomas forem prolongados e comprometerem as atividades normais - como estudar e se relacionar - então a criança precisa de ajuda.

Muitos dos sintomas da doença são semelhantes em adultos e crianças, tais como alterações de sono e apetite, tristeza prolongada sem motivo aparente, irritabilidade, apatia e anedonia (perda de interesse por coisas que antes davam prazer) - a criança deprimida brinca menos.

Sintomas nos quais se deve prestar atenção

Em bebês
  • expressão facial triste
  • apatia
  • perda de peso ou dificuldade em se ganhar o peso esperado para a idade
  • choro freqüente sem causa orgânica
  • insônia
  • irritabilidade
  • atraso da linguagem ou da parte motora
Dos 2 aos 7 anos
  • mudança súbita e inexplicável de comportamento
  • queixas de dores de cabeça e de estômago
  • dificuldade de se separar ou separações sem reação
  • alterações de apetite e sono
  • alteração da postura, tom de voz monótono e baixo, apatia
  • isolamento social
  • anedonia
  • linguagem, movimento ou reações lentos
Dos 7 aos 12 anos
  • sentimento subjetivo de depressão, queixas verbais de sentimentos como estar "triste", "infeliz", "culpado" ou "pesado"
  • irritabilidade, raiva, mau humor, aborrecimentos e reações desproporcionais aos eventos
  • anedonia
  • cansaço e falta de energia freqüentes
  • recusa em ir para a escola
  • dificuldade de concentração e pensamento lento, provocando queda no rendimento escolar
  • agitação: incapacidade de ficar sentado, andar de um lado para o outro sem parar, falar incessantemente, movimentar continuamente as mãos
  • retardo psicomotor
  • insônia, com dificuldade para iniciar ou manter o sono ou aumento do sono habitual
  • alteração de peso, que pode ser também diminuição de peso esperado para a idade
  • preocupação com pensamentos de morte ou suicídio
  • redução da criatividade, iniciativa e compreensão
De 12 a 19 anos
(o quadro clínico de adolescentes é semelhante ao do adulto)
  • humor irritável, angústia, ansiedade, inquietação e agressividade, dificuldade de lidar com sentimentos de baixa estima, desamparo e desapontamento consigo
  • desesperança, sensação de que as coisas não vão mudar
  • abuso de álcool e drogas (25% dos casos)
  • pensamento depressivo, sentimento de inferioridade, descrevendo-se como "sou bobo", "sou ruim", "ninguém gosta de mim"
  • hipocondria (mania de doença)
  • baixo rendimento escolar é percebido pelos pais mais do que queixas como cansaço, diminuição do apetite ou dificuldade de concentração
  • perda de interesse por coisas importantes ao adolescente como praticar esportes, sair com amigos, passear

"Só a presença dos sintomas, que não significa necessariamente que a criança esteja com a doença, já compromete seu bem estar e pode deixar traços que vão acompanhá-lo por toda a vida" sustenta Sônia Friederich, uma das primeiras psiquiatras a estudar o suicídio infantil no Brasil.

A escola desempenha um papel fundamental - a queda no rendimento escolar é um dos primeiros indícios de que algo está errado e que a criança deve ser investigada mais de perto. Vale ressaltar porém que mesmo a escola tendo um papel importante no encaminhamento da criança a um profissional, os professores não tem a obrigação e nem devem fazer nenhum diagnóstico - assim como os pais também não.

Até os dez anos de idade através da escrita e do desenho pode-se detectar que há algo de diferente acontecendo. Desenhar também é uma das formas de terapia mais comuns usadas em crianças durante seu tratamento.

A depressão em crianças foi durante muito tempo contestada. Na década de 60 alguns estudiosos alegavam que a criança não podia ter depressão por apresentar personalidade imatura e portanto sem condições de exteriorizar manifestações extremas de humor. Para os psicanalistas, na criança o código de valores morais que discrimina o certo do errado ainda não estaria formado.

Apenas na década de 80 a depressão infantil foi conceituada com a definição e descrição mais precisa da doença. Assim, os pesquisadores chegaram à conclusão de que durante muito tempo crianças e jovens considerados ansiosos eram na verdade deprimidos que foram mal diagnosticados.

Entre os seis mil pacientes anuais do Departamento de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Hospital das Clínicas de São Paulo que apresentam doenças afetivas, cerca de 10% são diagnosticados como deprimidos. Até os 12 anos de idade a proporção de casos entre meninos e meninas é a mesma. Já em adolescentes, há duas vezes mais mulheres afetadas do que homens.

Mas afinal, qual é a causa da depressão? Como ela surge e como deve ser tratada? Há cura para a doença?

A depressão, tanto infantil quanto adulta, não tem uma causa específica mas é uma somatória de fatores: os sociais, os psicológicos e um componente genético (ainda não completamente definido).

Na criança é comum que a depressão seja desencadeada por um fato da vida como a morte de um parente, o nascimento de um irmão, etc.

Como a criança depende dos pais para ir ao terapeuta e para comprar e tomar o medicamentos, uma barreira deve ser vencida: o preconceito dos familiares. Às vezes os pais por desinformação ou culpa não aceitam a doença, alegam que a criança não tem responsabilidades, obrigações e por isso não tem por que ficar deprimida.

A resistência em se diagnosticar a criança como depressiva, e a busca por causas orgânicas para explicar os sintomas, são comuns entre profissionais de saúde. Em geral o pediatra encaminha a criança para o neurologista, pois acha que é algo no cérebro e não na mente.

O tratamento é feito com psicoterapia e orientação familiar, atuando em todas as áreas. A medicação em crianças só é usada como último recurso, quando o grau de comprometimento da saúde mental e orgânica for alto.

A psicoterapia tem como objetivo reduzir os sintomas, aliviar o sofrimento, aumentar a capacidade de lidar com problemas futuros e reduzir a probabilidade de que os episódios depressivos voltem a ocorrer. Eliana Curatolo, psiquiatra infantil, explica que ainda não há certeza da cura, mas quanto mais cedo a criança se tratar, mais chances terá de aprender a lidar com sua realidade e de ter quadros depressivos mais leves.

"Depressão não é falta de amor, mas a falta de amor na hora certa"
(Leon Cytryn, psiquiatra infantil norte-americano em "Growing Upset")

(texto original: Cristina Couto)

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